A Hora do Jogo segundo Sara Pain

Inêz Kwiecinski   /   Dicas para Psicopedagogas, Jogos e Brincadeiras   /   5 Comentários

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A hora do jogo é um importante instrumento de análise e levantamento de dados no diagnóstico psicopedagógico.

Através da mesma é possível observar a dinâmica da aprendizagem, compreender os processos cognitivos, modelos de aprendizagem e as relações vinculares, sendo ainda uma ferramenta de intervenção capaz de desenvolver a percepção, ação, integração, interação, e a autonomia do sujeito.

Quais os objetivos da Hora do Jogo?

  • Verificar na criança a inter-relação que esta estabelece com o desconhecido e o tipo de obstáculo que emerge dessa relação;
  • Possibilitar uma leitura dos aspectos relacionados à função semiótica da criança, por meio de símbolos e verificar o nível dos processos acomodativos e assimilativos;
  • Fazer uma leitura dos conteúdos manifestos pela criança em relação aos aspectos afetivo-emocionais, relacionando-os com a aprendizagem.

Segundo a autora, pode-se aplicar a técnica denominada a Hora do Jogo, até a idade de 9 anos (PAIN, 1985). Para jogar é necessário ter um espaço transicional, um espaço de confiança, de criatividade, o mesmo espaço que se precisa para aprender.

Na hora do jogo são utilizados materiais preponderantemente não figurativos.

Colocam-se dentro de uma caixa, com tampa separável, elementos com as seguintes características: para desenhar, recortar, pegar, costurar, olhar, ler, escrever, caixas de diferentes tamanhos, para modelar, para juntar.

Colocam-se diferentes elementos com mesmo fim, cola, durex, grampeador, furador, possibilitando o desdobramento se assim o sujeito quiser. Os papéis devem ser variados, tanto na forma como na cor e tipo.

Podem ser colocados blocos de construção e folhas impressas prontas (de modo a verificar a liberdade ou a submissão), lápis de cor, lápis preto, borracha.

Os materiais não precisam ser novos, mas devem ter uma boa conservação.

A caixa deve ser de fácil acesso e cômoda, estando ela no chão ou na mesa.

A consigna é a seguinte:

“Aqui está uma caixa com muitas coisas e você pode brincar com tudo o que quiser; enquanto isso, eu vou anotar o que você vai fazendo. Um pouco antes de terminar, eu vou te avisar.”

Geralmente procura-se fazer uma sessão de 50 a 60 minutos de duração para a administração dessa técnica.
hora-do-jogo-caixa

 

Com o auxílio dos dados observados durante a técnica, o terapeuta deve analisar as respostas tanto verbais como gráficas do sujeito, tentando levantar hipóteses da significação do aprender para ele, a mobilidade inter-relacionada com inteligência e desejo, a construção do símbolo, tentar observar as modalidades de aprendizagem que aparecem, ver a capacidade do sujeito para criar, imaginar, refletir, argumentar, etc.

Há alguns momentos da Hora do Jogo que devem ser destacados para facilitar a análise do examinador, como o inventário, a organização e a integração.

O inventário, a organização e a integração.

No inventário a criança classifica os materiais, seja por mera manipulação, seja experimentando o funcionamento, ou seja, olhando dentro da caixa, favorecendo as possibilidades de ação.

O momento seguinte é o da organização, dedicado à postulação de um jogo.

O material passa a ser utilizado para uma ação, uma organização simbólica. Nessa fase a criança combina, ajusta os materiais na busca de um fim antecipado, aceitando e descartando possibilidades.

Depois desses momentos o próximo será o da integração, a aprendizagem propriamente dita, quando o sujeito incorpora o que fez aos seus esquemas anteriores, jogando, brincando com sua confecção.

É o momento em que dá sentido à sua criação. Possivelmente sujeitos com problemas podem apresentar dificuldades em alguma dessas etapas.

O uso de jogos também é sugerido como recurso, considerando que o sujeito através deles pode manifestar, sem mecanismos de defesas, os desejos contidos em seu inconsciente.

Além do mais, no enfoque psicopedagógico os jogos representam situações-problemas a serem resolvidos, pois envolvem regras, apresentam desafios e possibilitam observar como o sujeito age frente a eles, qual sua estrutura de pensamento, como reage diante de dificuldades. O foco de atenção do psicopedagogo é a reação do sujeito diante das tarefas, considerando resistências e bloqueios, lapsos, hesitações, repetição, sentimentos de angústia.

Os profissionais da psicopedagogia que tem como foco o processo de aprendizagem podem acrescentar ainda a essa análise, as modalidades de aprendizagens, ritmo, as áreas de expressão da conduta, o funcionamento cognitivo, os tipos e modos de erros, os hábitos adquiridos, as motivações presentes, as ansiedades, defesas e conflitos em relação ao aprender, além das relações vinculares com os objetos de conhecimento escolar em particular.

Portanto, a hora psicopedagógica do jogo colabora de modo significativo para a compreensão dos processos cognitivos, afetivo-emocionais, sociais e sua relação do sujeito com a aprendizagem.

Através do lúdico o indivíduo alcança a aprendizagem significativa, desenvolve o cognitivo, o afetivo, o social e emotivo.
É nesse contexto que se pode afirmar que jogar e aprender caminham interligados na psicopedagogia e, possibilita, através da hora lúdica ou hora do jogo, observar prazeres, frustrações, desejos, por fim, podemos trabalhar com o erro e articular a construção do conhecimento.

Algumas dicas:

  • Podemos trabalhar a Hora do Jogo com crianças até os 09 anos, após esta idade, eles preferem jogos de regras;
  • A participação do psicopedagogo neste momento deve ser mínima, quando a criança não consegue se apropriar dos objetos (caixa) podemos ajudá-la a inventariar o seu conteúdo;
  • Pergunta-se: O que você pode fazer com isso tudo?
  • Importante observar como a criança brinca e em casos extremos, em que condições ela é capaz de brincar;

 

Dados importantes a serem observados na Hora do Jogo:

• A distância do objeto; capacidade de inventário; classificação do conteúdo da caixa;

• Função simbólica, adequação significante/significado; desenvolvimento coerente da hipótese escolhida;

• Organização, construção da sequência;

• Integração, esquema de assimilação (falar, utilizar todos os materiais);

• Vinculação do esquema com os anteriores através de uma assimilação coordenadora.

 

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REFERÊNCIAS:

PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento de problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas.

ABERASTURY, A. A Criança e seus jogos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

BOSSA, Nádia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 2 eds. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

Inêz Kwiecinski
Psicopedagoga Clínica com especialização em Neuropsicopedagogia.
É diretora do Espaço PsicoEnvolver, clínica multidisciplinar que tem a missão de ajudar no desenvolvimento de crianças com dificuldades de aprendizado. Escreve para o Blog PsicoEnvolver.

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