Saiba como reconhecer o bom funcionamento das Funções Executivas.

Maria Geci Mallmann   /   Dicas para Psicopedagogas, Para a escola   /   Comentários

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Neste artigo vamos estudar e entender sobre as Funções Executivas e a sua importância para a aprendizagem.

As Funções Executivas (FE) são um conjunto de habilidades integradas que visam um objetivo, ou seja, são as habilidades cognitivas que nos permitem controlar e regular nossos pensamentos, nossas emoções e nossas ações diante dos conflitos ou das distrações.

Este conjunto de habilidade, atua para a realização de uma Meta especifica:  onde o sujeito terá que ter força de vontade, também chamada de volição. (Volição é o processo cognitivo pelo qual um indivíduo se decide a praticar uma ação em particular. É definida como um esforço deliberado e é uma das principais funções psicológicas humanas (sendo as outras afeto, motivação e cognição) Processos volitivos podem ser aplicados conscientemente e podem ser automatizados como hábitos no decorrer do tempo.), ou motivo intencional, planejamento, organização, estratégias, monitoramento de resultados, comportamento com propósito e desempenho efetivo, avaliação e se necessário, mudança de estratégias com objetivo de se chegar à Meta).

Existem três categorias de funções executivas:

  1. A memória  operacional, ou memória de trabalho, ou seja, a capacidade de conservar as informações  na mente, o que permite utilizá-las para fazer o vínculo entre as ideias, calcular mentalmente e estabelecer prioridades, é a memória utilizada enquanto estamos operacionalizando uma resposta.
  2. O controle inibitório, ou autocontrole, ou seja, a capacidade de resistir contra fazer algo tentador para privilegiar a ação desejada. Ele ajuda as crianças a permanecerem atentas, a agir de forma menos impulsiva e a ficar concentrada em seu trabalho. O Controle Inibitório focaliza na resposta que está sendo operacionalizada pela memória operacional, é composto pelo controle da interferência (inibe pensamentos intrusos e seleciona o foco da atenção) e pela inibição das respostas (inibição em nível comportamental de respostas inadequadas ao contexto).
  3. A flexibilidade cognitiva, ou seja, a capacidade de pensar de forma criativa e de se adaptar às demandas inconstantes. Ela permite utilizar a imaginação e a criatividade para resolver problemas, inclui a habilidade de pensar “fora dos padrões”. Ver alguma coisa de diferente perspectiva. Mudança de tarefas e cursos quando necessário.

Como as funções executivas desempenham um papel essencial no desenvolvimento das crianças e em seu sucesso até a idade adulta, é importante encontrar maneiras de favorecer sua evolução durante a primeira infância.

Lembrando que, “Bom nível de Funcionamento Executivo equivale a uma Inteligência Fluida”.

A Inteligência fluida é composta pelas habilidades de integração e manipulação dos conhecimentos adquiridos (cristalizados) a novas situações.  Um exemplo é a resolução de problemas de modo eficiente e assertivo.

Um nível deficiente das FEs leva a criança a ter dificuldade de prestar atenção na sala de aula, de realizar suas tarefas, e de inibir seus comportamentos impulsivos.

A escola fica menos divertidaO professor está sempre se irritando, fica difícil atender às exigências da escola, e todos acabam os vendo como maus alunos. Por outro lado, é provável que as crianças que têm um nível de FEs mais adequado sejam mais elogiadas pelo seu bom comportamento, gostem mais da escola e queiram passar mais tempo em seus deveres escolares. Os professores gostam delas e isso leva à criação de um circuito auto-reforçador de retroalimentação positiva. Minha hipótese, portanto, é que os benefícios de um desenvolvimento das Funções Executivas mais cedo, lá na educação infantil podem aumentar ao longo do tempo, ajudar as crianças em situação de risco a desenvolver suas FEs mais cedo pode ser um elemento crucial.

Como o brincar desenvolve as Habilidades Executivas?

As Funções Executivas são desenvolvidas ao longo da infância, adolescência e primeiros anos da vida adulta e estão relacionados à maturação do córtex pré-frontal, região cerebral responsável por estas habilidades. O desenvolvimento se dá a partir da superação de desafios. Portanto, qualquer jogo ou brincadeira com regras estabelecidas e objetivo especifico pode ser tarefa de treino para efetivar estas habilidades.

Observa-se que existem indivíduos com grandes dificuldades em planejar estratégias para chegar ao objetivo da tarefa, obedecendo às regras pré determinada, em outros, a dificuldade é em manter o tempo e o comportamento como propósito entre outros aspectos. O treino das funções executivas é de extrema importância, e neste caso necessitam de um mediador que tem a função de auxiliar na criação do hábito ou da habilidade deficitária ou em desenvolvimento. Como? Bem, da mesma forma como criamos um novo hábito, ensinamos uma nova tarefa, ou um novo jogo.

Inicialmente devemos suscitar no indivíduo a sua Volição (sua decisão) pela tarefa, aspectos emocionais são bem-vindos neste momento (motivação pelo prazer). Fazer com que o indivíduo perceba o quanto de positivo aquela tarefa agrega. Geralmente, não sempre, este primeiro momento, o da apresentação do novo, é que vai determinar a adesão e o gosto pelo mesmo. E partindo daí se desenvolve a brincadeira ou a tarefa passo a passo justificando sua importância. Todo hábito é um treino, uma repetição, quando a tarefa for bem concluída mesmo que não tenha sida atingida sozinha deve ser acompanhada por um reforço positivo. Assim, conforme a assimilação da tarefa é feita pelo indivíduo, aos poucos, a mediação é retirada.

Assinala-se que é de grande riqueza brincadeiras que envolvem grupos de indivíduos onde há a necessidade de se respeitar uma ordem, um espaço e um tempo.

Então vamos a um exemplo prático, vamos brincar!

Ovo Choco: Escolhemos esta brincadeira de roda por que de forma simples envolve a atenção, percepção, planejamento, escolha/decisão, prontidão, controle de comportamento, coordenação física, equilíbrio, e respeito ao tempo e diferenças entre os colegas. Esta brincadeira também conhecida por ovo podre ou galinha choca) é uma brincadeira antiga, que pode ser jogada a partir de um grupo de 05 crianças que sentam em formação de roda.

Inicialmente o mediador explica que as crianças vão fazer uma brincadeira onde todos participarão e que todos terão chances iguais de se divertirem. Para tanto será necessário ficar na posição, sentados e prestar bastante atenção. Enquanto vai explicando a atividade a mesma deve estar sendo realizada. Assim sucessivamente até todo grupo entender a brincadeira, provavelmente na segunda vez que esta brincadeira for realizada a grande maioria já tenha assimilado suas regras, caso aconteça algum comportamento inadequado, deve ser corrigido de forma sutil e sem constrangimentos. O mediador vai aos pouco se afastando não sendo mais necessário a partir da assimilação da tarefa.  É importante salientar as regras e a importância de obedecê-las durante as brincadeiras, justamente onde está sendo executado o treino das habilidades executivas (da espera, da atenção e do controle do comportamento entre outros), assim sucessivamente em outras brincadeiras e atividades.

Brincadeira do Ovo Podre ou Ovo Choco

Material necessário: um objeto pequeno para ser o “ovo podre” : uma bola, uma pedra, ou até uma bolinha de papel amassado.

Ambiente: um espaço amplo, de preferência ao ar livre, como um pátio ou praça.
Mas pode ser também uma sala, se for grande o bastante para se formar uma roda e as crianças correrem.

Como se Joga?

Sorteia-se um jogador para ser o portador do “ovo podre”.

Os jogadores restantes se sentam formando um círculo.

O portador caminha do lado de fora do círculo segurando o ovo enquanto fala:

Portador: “Ovo podre!”
Grupo : “Tá fedendo”.

Portador: “Onde é que eu ponho?”
Grupo: “Na lata do lixo.”

Portador: “O lixeiro já veio?”
Grupo: “Só na semana que vem”

O portador precisa colocar o ovo atrás de um dos jogadores sentados sem que este perceba, e se afastar correndo, sempre em torno da roda.

Quando os outros jogadores do grupo percebem que alguém recebeu o objeto indesejado, gritam: “Já fedeu, já fedeu, já fedeu!”.

O jogador que ganhou o ovo tem que correr atrás do ex-portador, antes que este complete uma volta inteira na roda e sente em seu lugar.

Se o jogador que largou o ovo conseguir ocupar o lugar do colega, é a vez deste percorrer a roda com o “ovo podre”.
Mas se o jogador que ganhou o ovo consegue alcançar o primeiro portador antes que este complete a volta, o portador tem que aceitar o ovo de volta e andar de novo em torno da roda até escolher outro colega.

Além da atividade física, esse jogo proporciona desenvolvimento da percepção e controle manual, pois é preciso habilidade para colocar o ovo atrás de um jogador sem que ninguém perceba.

Às vezes acontece do grupo não perceber que um de seus membros recebeu o ovo, ou só o jogador “premiado” não perceber até ser quase tarde demais e o ex-portador ter completado a volta.

O que podemos fazer para ajudar as crianças a desenvolver essas habilidades essenciais de FEs?

Ativando as Funções Executivas através do Faz de conta

De acordo com Vygotsky, em crianças muito jovens, a partir da educação infantil, a participação em brincadeiras de faz-de-conta de interação social é essencial para o desenvolvimento das funções executivas. Durante as brincadeiras de faz-de-conta, as crianças devem se concentrar em seu próprio papel e no papel das outras crianças (memória de trabalho).

• inibir o faz-de-conta fora do personagem (empregar o controle inibitório), e

• ajustar-se de forma flexível às mudanças e reviravoltas da trama sendo desenvolvida (flexibilidade cognitiva) – isto é, assim todas as três funções executivas essenciais são praticadas.

Alguns estudos têm demonstrado que os jovens que participam de coral, aulas de música ou orquestras têm um melhor desempenho acadêmico e mais êxito na escola.

Demonstrou-se que atividades físicas como o treinamento de Tae Kwon Do, pular corda, brincar ao ar livre, andar de bicicleta melhora as funções executivas das crianças (inibição: disciplina, regulação da emoção; memória de trabalho: desempenho numa tarefa mental de matemática) e o tratamento respeitoso dos colegas.

A atividade de contar histórias por exemplo, exige e atrai a atenção total da criança por longos períodos (uma atenção sustentada e total) e a memória de trabalho para manter na mente tudo o que aconteceu até um determinado momento, as identidades dos diversos personagens, e para relacionar tudo isso às novas informações sendo reveladas.

Crianças mais novas devem ser estimuladas a criarem seus próprios brinquedos, como por exemplo: caixas de papelão podem transformar-se em carros, navios pirata, trens, aviões, castelos, casas, camas, fogões Com galhos, pedrinhas, areia e terra, criam-se incríveis cenários para brincar com bonecos e animais de brinquedo. Rolos de papel alumínio viram lunetas, foguetes e torres de castelos. Lençóis e toalhas velhas amarrados a cadeiras, grades ou hastes transformam-se em lindas cabaninhas onde as crianças podem passar horas brincando ou ouvindo histórias. É importante que usem a imaginação para brincar. Quando uma criança brinca de bombeiro, de médico, de cozinheiro ou de professora, ela mesmo estabelece regras que orientarão sua conduta durante a encenação. Ao longo da brincadeira, ela busca seguir aquelas regras e inibe impulsos e atitudes que não se adequam ao papel desempenhado. Em geral, ela se inspira em adultos com que tem algum contato ou em personagens de livros, filmes ou desenhos.

Brinquedos também são importantes nessa idade, jogos como:

Pega varetas, um bom treinamento para a coordenação motora fina, também exercita as habilidades das funções executivas, é barato e tem regras muito simples.

Quebra-cabeça, ajudam a desenvolver a capacidade de resolver problemas com apenas uma solução possível, treinam a memória de curto prazo e as capacidades cognitivas de comparar, analisar e sintetizar. Estes jogos sempre são desafiadores.

Espero que este texto tenha esclarecido pontos importantes sobre as Funções Executivas. Se tiverem algo a acrescentar, escrevam nos comentários.

Até a próxima.

Maria Geci Mallmann
Psicóloga com especialização em Neuropsicologia, realização avaliação neuropsicológica, Wisc IV, entre outros.

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